Protetor de animais corre risco de ter que deixar Morro Santa Teresa PDF Imprimir E-mail
Seg, 31 de Outubro de 2011 13:13

 

cachorrosUma história de duas décadas dedicadas a animais de rua no Morro Santa Teresa, em Porto Alegre, está ameaçada de chegar ao fim. O terreno onde o professor de dança aposentado Ádio Nunes, 79 anos, vive junto com 58 cachorros, e que pertence a uma empresa privada, deverá ser utilizado para a construção de unidades habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida. Uma residência foi oferecida a ele na Vila Nova, sem custo, mas “Seu Ádio”, como é conhecido, se recusa a deixar o local onde vive.

O impasse mobilizou a vizinhança e os órgãos públicos. Alguns moradores agiram para evitar o despejo. De acordo com Nunes, um abaixo assinado a seu favor já conta com 1,5 mil assinaturas. “Existem plantas nativas e área verde que precisam ser cuidadas”, justificou a jornalista Dorotea Gehrke, uma das apoiadoras. Alguns vizinhos, porém, reclamam do mau cheiro provocado pelo grande número de cães e esperam que o aposentado saia do local. “Sei que o animal tem odor, mas a limpeza é feita duas a três vezes por dia”, justifica Nunes.

Na semana passada, uma comitiva da Câmara de Vereadores esteve no local. “Acima de tudo, devemos salvaguardar a vida de uma pessoa e sua condição digna de moradia”, disse o presidente da Comissão de Saúde e Meio Ambiente (Cosmam), Thiago Duarte (PDT). De acordo com ele, a Cosmam irá estudar a documentação do terreno e propor uma reunião com as partes envolvidas e com o Executivo municipal.

Nunes está no terreno desde 1993. “Me colocaram para cuidar porque o senhor que ficava aqui tinha falecido”, conta. Ele afirma que, em 1998, foi levado a assinar um contrato de comodato. O usucapião foi negado pela Justiça e hoje a área de 5,5 mil metros quadrados pertence à Fará Gerenciadora de Negócios. De acordo com o diretor da empresa, Ricardo Dorneles, a licença para a construção das casas já foi liberada pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam) em março deste ano. “Vamos construir aqui 140 apartamentos para moradores de baixa renda da cidade”, explicou. A própria empresa se comprometeu a abrigar Nunes em uma nova casa, na Vila Nova.

Ataque de rottweiler

Ádio Nunes ainda traz no pescoço e nos braços as consequências do ataque que sofreu, há duas semanas, de uma cadela rottweiler. Socorrido, o aposentado levou tantos pontos que chegou a perder a conta. Ele ficou com dificuldades para falar e se locomover. A cadela foi recolhida pela prefeitura. De acordo com Nunes, os outros cães abrigados no terreno são dóceis e não causam problemas. Todos os animais foram castrados.

O sustento de Seu Ádio provém de uma minguada aposentadoria. A ração dos animais - que consomem 40 quilos por dia - vem de doações. Apesar da grande quantidade, cada cão tem um nome dado pelo protetor, que afirma não ter um preferido entre os 58. “Eu estimo todos. Para mim são iguais”, explica. O que o leva a abrigar tantos animais, segundo ele, é o fato de ter uma missão a cumprir. No entanto, diz que não tem condições de receber mais cães no local.

Com amigos no Morro Santa Teresa, o aposentado tem esperanças de que deverá permanecer no terreno, que além dos animais abriga árvores nativas. “Aqui tenho a comunidade que me apoia”, afirma. “Vou lutar até o fim, não pelo usucapião, mas pela mata nativa.” A doação de ração para os cães pode ser feita na rua Dona Otília, número 100. Interessados também podem adotar um dos cães.

 

Notícia publicada no Jornal Correio do Povo
Geral 31/10/2011


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