Sinais de Materialidade dos Crimes Sexuais PDF Imprimir E-mail
Qua, 04 de Junho de 2008 17:00

 

  • Ambos os crimes sob o ponto de vista médico-legal apresentam sinais de materialidade que basicamente se dividem em três grupos:
  1. Ruptura himenial – que pode ser recente (aonde irão se evidenciar sinais de solução de continuidade [pequenos sangramentos com escoriações] ) ou tardio (região himenial completamente cicatrizada);

  2. Espermatozóides – que no meio vaginal, via de regra, sobrevivem até cerca de 48 horas;

  3. Gravidez – o mais patente dos sinais de que houve relação sexual.


 

    • Mas à medida que cresce a tecnologia pericial na detecção das provas – os criminosos premeditados (regra) ficam mais arrojados nestes crimes sexuais.

    • O exame de corpo de delito que tenderia a evidenciar os sinais de materialidade do ato sexual muitas vezes hoje não o faz, já que em muitos casos, o criminoso utiliza o preservativo.

    • A grave ameaça “com o revolver apontado para a cabeça da vitima” passa na prática a ser a regra e assim a violência passa de física a ser moral diminuindo a especificidade do exame de corpo de delito.

    • Ainda o Subrregistro destes crimes infelizmente é a regra, principalmente na periferia das grandes cidades, devido: a vergonha, a impunidade, o medo do criminoso, o medo do preconceito, o medo do julgamento social - de que pelo seu comportamento instigou o criminoso a praticar tal bárbaro ato.

  • Qualquer mulher pode ser vitima de estupro: as prostitutas e as casadas – “quando há violência não se pode falar em exercício regular de direito” (Damásio de Jesus) associam-se a esta idéia (Mirabete e Celso Delmanto).

  • Nos crimes sexuais a regra, principalmente no que se refere à violência contra o menor, mostra que o criminoso é do meio intrafamiliar.

  • O que se preconiza no Atendimento a Vítima:

    1. Anamnese completa – com ênfase no tipo de violência sexual (para avaliar risco de transmissibilidade de infecções) e no método anticoncepcional e na fase do ciclo menstrual (avaliar risco de gestação).

    2. Exame físico completo e tratamento das lesões que o exigirem – a necessidade de detalhada descrição das lesões (inclusive com estimativa temporal) para subsidiar o inquérito policial.

    3. Coleta de exames: BHCG; VDRL; Anti-HIV: Hepatite B e C e coleta de secreção vaginal e retal.

  • BHCG; VDRL; Anti-HIV: Hepatite B e C – devem ser coletados mesmo que o ato tenha ocorrido há menos de 24 horas, obviamente, que o objetivo passa a ser se a vítima já tinha antes da violência tais patologias ou estava grávida.

  • Coleta de secreção vaginal e retal – procurando identificar espermatozóides ou infecção vaginal ou retal advinda do ato sexual.

  • Profilaxias:

    1. Da gravidez indesejada: Método Yuzpe =

      • Etinilestradiol 0,03 mg + Levonorgestrel 0,15 (Microvlar) 4 cp VO de 12/12 horas 2 doses

      • Etinilestradiol 0,05 mg + Levonorgestrel 0,25 Neovlar 2 cp de 12/12 horas 2 doses

      • Microvlar 1 cp VO 8/8 horas 5 dias.

        Pílula do dia seguinte Levonorgestrel 0,75 (Postinor) 1 cp VO 12/12 horas 2 doses.


 

  • Ambos só tem grande eficácia nas primeiras 24 horas atingindo cerca de 95% de não gestação. Não adianta tentar utiliza-lo quando já e evidencia atraso menstrual.

  • Mesmo que o estuprador não ejacule pode ocorrer fecundação pois o liquido que lubrifica o canal uretral masculino, antes da ejaculação, contém espermatozóides. Também em virtude disto é que sempre dissemos que o coito interrompido não é um bom método anticoncepcional.

  • O principal mecanismo de ação, ainda é impedir a fecundação num primeiro momento, mas também atua impedindo a nidação.

  • Se houver falha da anticoncepção de emergência e a paciente engravidar, se for seu desejo, o abortamento é previsto na lei e deveria ser feito pelo SUS.

“Artigo 128 - Não se pune o aborto praticado por médico:

II – se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal”


 

  • Aqui há uma delicada questão que devemos mencionar:

O aborto sobre o prisma legal é a interrupção da gestação antes do nascimento, independentemente da idade gestacional; sob o ponto de vista médico obstétrico, é a interrupção da gravidez até a vigésima semanas. Esta fixação temporal tem uma grande importância na análise de alguns casos concretos:

Na gravidez de uma menina de 13 anos, menor de 14, a violência é presumida, mesmo que ela consinta no ato sexual, portanto se há relação pênis vagina no caso aludido - há estupro e o aborto segundo o artigo 128 pode ser executado (independentemente da idade gestacional). Obviamente que se a gravidez apresenta adiantado desenvolvimento não se executa o ato por motivos éticos, mas o princípio legal autoriza.


 

  • Como é realizada a interrupção da gestação:

    1. Até as 12 semanas – curetagem uterina

    2. De 13 a 20 semanas – indução com misoprostol + ocitosina; após a eliminação do feto Curetagem Uterina.

    3. Gestação > 20 semanas – não se recomenda interrupção – oferecer acompanhamento pré-natal e psicológico, procurando facilitar os mecanismos de adoção se a paciente desejar.

 

  • Das DSTs - as infecções mais freqüentes são: gonorréia, clamídia, vaginose bacteriana, tricomoníase e as infecções virais pelo herpes e pelo papilomavírus humano.


 

    1. Do HIV – a taxa de infecção para mulher:

  • Relação heterossexual vaginal única 0,08 a 0,2 %

  • Relação heterossexual anal única 0,1 a 0,3 %

  • Relação heterossexual dupla + violência física 0,8 a 1,6 %

  • Violência com múltiplos agressores chega a 10%


 

Não existem dados precisos que possam estabelecer a eficácia da administração profilática de anti-retrovirais nos casos de violência sexual, mas o uso destas drogas tem sido recomendado com objetivos profiláticos em outras formas de exposição como acidentes ocupacionais:
 

A recomendação do CDC e do Ministério da Saúde é:

  • AZT 300 mg VO 12/12 horas 4 semanas + Lamivudina (3TC) 150 mg VO 12/12 horas 4 semanas.

    1. Da hepatite B – anticorpo – Imunoglobulina hiperimune para hepatite B dose única seguida da Vacina para hepatite B - primeira dose nas primeiras 72 horas (outras duas em 30 e 180 dias).

    1. Acompanhamento:

  • Sífilis em 30 dias;

  • Anti HIV em 90 e 180 dias;

  • Hepatite B em 60 e 180 dias;


 

PROCURAR ATENDIMENTO ESPECIALIZADO LOGO APÓS A VIOLÊNCIA SEXUAL, MESMO COM A DOR INERENTE AO ATO, É A MELHOR E A ÚNICA FORMA DE EVITAR UM MAL MAIOR.”


 

Bibliografia

Código Penal art. 213; 214 e 218.
Medicina Legal Genival França Guanabara Koogan
Rotinas em Ginecologia Freitas e Col. Artes Médicas
Rotinas em Obstetrícia Freitas e Col. Artes Médicas
Citações de Damásio de Jesus, Mirabete e Celso Delmanto
 



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